sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Dor do crescimento


Tenho saudades do tempo em que era apenas uma criança, sem dor, sem medo, sem insegurança, quando a única coisa que queria era que o sol despertasse todas as manhãs para que pudesse brincar no passeio. E enquanto brincava, o mundo corria veloz ao meu lado, e eu sem pressa ficava a olhar para tudo, a aprender como é que esta bola funciona.
Um dia o passeio ficou pequeno demais para mim e o sol já não brilhava todos os dias. Comecei a sentir uma dor dentro de mim. Perguntei o que se passava e os adultos diziam que estava a crescer. Chorei. Pela primeira vez chorei, não por a sopa estar quente, não por não me levarem à praia, não porque a boneca se tinha partido. Não…naquele dia foi o meu coração que começou a chorar, pois estavam a roubar-me os meus sonhos, a minha alegria e sentia que o mundo me estava a puxar para dentro dele.
De dia para dia me sentia uma estranha de mim mesma. Aprendi a viver numa coisa chamada sociedade. Foi ela que ditou a maioria das regras… Depois comecei a conhecer outras pessoas que sentiam o mesmo que eu mas não o demonstravam, então achei que o que chamavam de crescer era aquilo, e que era normal. Conformei-me, alinhei nos esquemas da tal sociedade e comecei a parecer-me com todos os outros. Já não brinco no passeio, o sol não sorri para mim, mas as pessoas olham para mim e parecem gostar. A dor do crescimento passou, e até aí fiquei contente…mas com tudo isto vieram mais dores…e já não era o meu corpo que se queixava, mas o meu coração que chorava. Fingindo-me inocente perguntei aos outros adultos se também há remédio para o meu coração, ao que eles riram. Eu ri também e continuei a adormecer todas as noites com esta dor no peito.
O mundo traiu-me. Levou-me na sua corrida veloz e tirou-me daquele passeio. Roubou-me os sonhos e o sol que me aquecia o coração.
Esperançosa, acreditei que amando, o meu coração deixaria de sentir dor…mas enganei-me a mim mesma, porque amar também implica sofrer, lutar, perder, ganhar…
Hoje tenho a noção de que a felicidade é um estado de espírito e que posso amar a vida inteira mas nem sempre me sentirei feliz; sei que não posso amar demais pois isso implica outros sentimentos que me destroem; sei que vou lutar contra tudo e contra todos para defender o que conquistei até agora; sei que vou perder algumas vezes, talvez todas, mas não deixarei de lutar nem de me esforçar para ser um ser humano cada vez melhor…


Sandra

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