
"O amor dá prazer, mas também dá muito trabalho. Uma relação a full time requer concentração, bom senso, paciência, tolerância e disponibilidade. A empatia é uma grande aliada, enquanto o sentido crítico e o confronto directo se podem revelar armas perigosas, funcionando como paus de dois bicos.
Na fase do encantamento inicial é tudo muito fácil, muito fluído, olhamos para o outro sob o véu da paixão e do desejo, estamos a descobrir em cada pormenor um universo inteiro de prazer, procuramos identificar-nos com ele em gostos, estilo de vida e interesses, desejamos a fusão de corpo e alma e acreditamos que, juntos, somos invencíveis.
Essa é a fase mais fácil, em que tudo é azul, às bolinhas e às florinhas. A vida é uma comédia romântica e somos nós quem escolhe a banda sonora. Pergunto-me frequentemente se é possível não abandonar esse estado de graça que existe no encanto mágico de todos os inícios.
Será que nós, que com a idade carregamos um porta-aviões de histórias antigas, traumas, medos e sonhos, podemos desenvolver a capacidade de atirar para trás das costas o que já sofremos ou o que não conseguimos, e recomeçar do zero, dando a volta por cima aos nossos problemas sem passar pela casa da partida?
Esse é um dos grande desafios das novas relações. Agora que o mundo das mulheres e dos homens já não é feito de ilhas, que é esperado que todos saibamos aceitar e perceber as nossas diferenças, será possível cruzar os nossos universos em função de um bem comum maior e mais harmonioso? O que é preciso mudar para aguentar os choques, as diferenças, as discussões parvas sobre assuntos menores, a guerra clássica do ‘eu quero isto e tu aquilo’, ‘o que é importante para mim não é para ti’?
Alguns casais de longa duração com quem convivo recomendam calma, ponderação, tempo e espaço se tal for necessário. Ainda que discutam, há sempre um dos elementos que cede temporariamente, esperando o momento certo para retomar a conversa. Cobardia ou dissimulação? Prefiro chamar-lhe habilidade e astúcia. Ao aceitarmos que o outro, por mais que nos ame, nem sempre está no nosso comprimento de onda, estamos a respeitá-lo. A paciência é irmã da empatia e prima da tolerância. Como me disse o meu querido pai há muitos anos, impotente perante a minha rebeldia adolescente: «Tenho de te aceitar como és, mesmo que não te perceba».
Apredemos a amar com os nossos pais, são eles que nos carregam (ou não) as baterias do amor. Depois apaixonamo-nos, enganamo-nos, desistimos, voltamos atrás, vamos ao tapete, passamos uma temporada no estaleiro das almas e voltamos à estaca zero quando nos apaixonamos outra vez e o mundo volta a ser azul.
Em cada desilusão há uma aprendizagem, em cada ruptura dá-se um passo em frente. O segredo em manter a capacidade de sonhar e de continuar a ver tudo azul, afinal, só depende de nós."