domingo, 29 de novembro de 2009

Gosto


Gosto do teu ar, do teu olhar, da tua forma de andar, das tuas mãos guardadas nas minhas, gosto de te cheirar, de te sentir, de me calar para te ouvir, de me deitar ao teu lado para dormir e depois acordar, depois espreguiçar-me e levantar, e rir e dançar e cantar e cada dia outra vez começar um novo dia a sonhar.

Gosto da tua boca certa e do teu cabelo farto, da tua voz cantada e aconchegante, dos teus beijos longos, dos teus abraços infinitos, das tuas piadas e risadas, dos teus braços à volta dos meus, as duas cabeças encostadas, os ombros em paralelo, as pernas dobradas e os pés juntos, gosto do teu hálito fresco e do teu sorriso aberto, da tua cabeça arejada e do teu olhar mais secreto, gosto de te ver junto ao meu peito a contar as batidas do meu coração, de sentir que estás sempre perto e sempre estarás, que vives cá dentro e mesmo na ausência, quando só te vejo com os olhos fechados e as mãos juntas em concha, sei que és perfeito, sei que voltarás, sei que estás quase a chegar, que cada minuto que passa e só mais uma etapa na minha espera, por isso espero calada e feliz, e nas letras que transformo em palavras imagino a cor e o sabor deste amor, deixo-me levar, crescem-me asas e de repente desato a voar, voar...

E então, já não sou eu, olho-me no céu e vejo um balão cheio de mel, tu puxas o fio como uma criança que guia o seu papagaio no dia de sol e ventania, agora mais para cima, até às nuvens, agora em frente, a sobrevoar o mar, depois em cima das dunas, cá em cima o mundo é todo liso, só a tua silhueta se desenha, se destaca e se revela num horizonte imenso e infinito e então tu puxas o fio, eu desço devagar, cada momento que te vejo mais próximo é eterno e irrepetível, cada momento é nosso e só nosso e quando me apertas outra vez nos braços e me dizes baixinho quero-te, quero-te, quero-te, só me apetece rir e chorar, só quero ter outra vez cinco anos, fazer corridas de bicicleta e esfolar os joelhos, lamber gelados até ficar com bigodes brancos, apanhar laranjas das árvores e sorvê-las com as mãos a escorrer, rebolar-me num campo de campainhas amarelas, apanhar margaridas e pô-las no cabelo, subir a uma árvore e construir uma cabana e depois esconder-me lá dentro, tu e eu debaixo do mesmo tecto, debaixo do mesmo segredo, do mesmo sonho, do mesmo projecto.

Gosto de te ver a rir e a brincar, gosto do teu cheiro e do teu olhar, gosto de te ter sempre perto e de sentir que tudo está certo, de saber que afinal vale a pena acreditar que um dia a paz acaba sempre por chegar, que não há esperas vãs nem dias perdidos, que todas as noites são de lua cheia e todas as manhãs estão cheias de ti, meu amor, quero-te, quero-te, quero-te.

Por isso abre as mãos e o peito, deixa-me ficar para sempre lá dentro, guarda-me em ti e espera sem esperar a cada dia que passar, que este meu amor imenso, doce e intemporal resista ao mundo, resista a tudo e não precise de mais nada a não ser de TI, tu que és princípio e fim, que estás no meio de tudo, que atravessas a vida de mão dada comigo, tu de quem eu gosto, gosto, gosto
.”


Gosto. As Crónicas da Margarida - Margarida Rebelo Pinto

Subscrevo letra a letra.



sábado, 28 de novembro de 2009

I´m gonna tell you a history about love

Os protagonistas desta historia são o Manolo e a Matilde.
Eles são dois velhinhos de 80 anos e estão juntos há 63!

A primeira vez que afortunadamente pude vê-los pensava que estava a assistir a uma peça de teatro, uma verdadeira comedia romântica sénior!
Mas ao ver-me reflectida no espelho com a farda branca e o soro na mão caí na real.
E ali estava eu, a assistir a um pequeno capítulo de uma linda história de amor.
Eles são duas pessoas que se amam e respeitam a cada minuto que respiram.
Sabem um sem número de canções, sobre as mais diversas temáticas. Dizes o teu nome e eles cantam a tua música.
Cada vez que peço permissão para entrar começam em coro: “manda flores à Sandra, para que venha ver-nos” e é com este genérico que vejo mais um capítulo. É assim que me perco e atraso os meus afazeres que deixam de ter qualquer prioridade.

A Matilde gosta de falar comigo e eu sou uma sortuda porque a ouço!
A Matilde contou-me que vinha de uma pequena aldeia onde recebeu uma educação católica, ia à igreja frequentemente e não sabia o que era a maldade, quando conheceu oManolo.
O Manolo era um jovem adulto cujos pais faleceram antes do tempo e o deixaram entregue à boa vontade de sucessivas instituições.
O Manolo viu na Matilde o porto seguro que nunca tivera. A Matilde viu no Manolo um homem bom e respeitador, diferente de todos os outros.
Em 1950, casaram.
Hoje têm 59 anos de casados e uma lista de doenças e operações das quais não esquecem nenhum pormenor. A sua fortuna são os dois filhos e uma gata. Os filhos são dois cinquentões solteiros que ainda vivem com eles.
Então pergunto-me por que motivo os filhos não deixam o lar dos pais…A Matilde diz que já tiveram namoricos, mas sempre chegaram à conclusão de que por mais que procurem, nunca vão conseguir encontrar uma Matilde e apaixonar-se como um Manolo.


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dias de Folga

Há dias em que não se trabalha. São os dias de folga. Folga da profissão, dos colegas, dos pacientes, da rotina.
Mas eis que em casa o trabalho também bate à porta. E há roupa para passar, pó para limpar, chão para aspirar, vidros que querem brilhar e uma esfregona que anseia por dançar.
Então ponho mãos à obra e viro Dona de Casa de Desesperada.
A roupa engomadinha arruma-se nas gavetas, o pó salta dos móveis e deixa-os ser “negro-marron” (sem tonalidades claras!), os azulejos brillham, os vidros reluzem e enquanto isso já cheira a pão acabadinho de fazer na maravilhosa máquina que a mamã deu.
Vou levar o lixo, o chão está a secar e eu estou cansada.
Mas é dia de folga! Eu não fui trabalhar, nem sei porque é que estou cansada…
É então que me apresso para sair e arejar porque não sair de casa num dia de folga é algo que a minha digníssima pessoa não aguenta.

Mal desço o prédio encho-me de alegria com os miúdos que brincam na praça sob o olhar atento dos pais.
Como em todos os fins de tarde os donos saem a rua para passear os seus cães e são vários os que fazem jogging na Avenida Europa.
Caminho um bocadinho e já estou no mega centro comercial. Vou ao café do IKEA. Tomo religiosamente o meu capuccino oferecido aos clientes com cartão IKEA Family. É estranho, mas esse café tem algo que me atrai, não sei bem porquê...
Talvez seja a grande vidraça que dá para o parque de estacionamento e me divirto a ver sucessivas tentativas de arrumar tudo-e-mais-alguma que foi permitido comprar e agora não entra nas malas dos carros.
Talvez seja porque vejo crianças ainda com o uniforme da escola que gesticulam entusiasmadamente a contar as peripécias do recreio aos pais que vêm a recordar a lista das compras.
Talvez seja porque a cada 5 minutos vejo um avião a descolar e isso me faz criar um milhão de pensamentos à volta das viagens que sonho fazer e dos destinos que desejo visitar…
Mas quando percebo que a noite chegou olho o relógio e lembro-me que detesto o horário de Inverno. Tenho de cortar esta interminável linha de pensamentos porque quero iniciar a corrida para as compras de Natal...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Privilégio

A vida não nos dá aquilo que mais desejamos.
Dá-nos a oportunidade de o conseguirmos alcançar.
Assim é difícil.
Porque é que não nos é dado de presente?
Não teria valor nenhum.
Há maior prazer e satisfação do que a sensação de “missão cumprida”?
Há melhor aprendizagem do que escolher as opções erradas e consciencializar-nos disso?
A vida já me deu várias oportunidades.
Em todas elas me fez duvidar, questionar…sofrer.
Isso também faz parte?
Faz.
“O que não nos mata, torna-nos mais fortes”.
Nunca baixei as armas.
Raramente me senti segura.
Nem sempre tomei as melhores decisões.
Às vezes queria desistir.
Quase sempre chorei.
Mas
Sempre tive as pessoas certas ao meu lado.
E isso é indubitavelmente, o mais importante.
Independentemente dos sucessos e dos fracassos.
Apesar dos meus defeitos e das minhas manias.
Sinto-me uma privilegiada.
Tenho a melhor família do mundo.
E conservo os melhores amigos do mundo.
O resto vou construindo a cada dia.

Obrigada.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

= )

Ao fim de 14 horas de trabalho sabe bem abandonar o serviço com um sorriso nos lábios.
Abençoado destino que não me deixou ser fisioterapeuta e me permitiu ser enfermeira.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A essencia de umas olheiras

Tenho os olhos desenhados por umas expressivas olheiras, ardem-me de tanto sono...
Isto de estar um mês e meio a fazer tardes e mudar para as manhãs tens os seus "senãos".
Da rotina de acordar a meio da manhã e deitar-me às 2h passei a levantar-me às 6h15, chegar às 2h e estar sem sono.
Dormir 4 horas, sair de casa ainda de noite, aturar uns quantos médicos, colocar outras tantas quimioterapias, atender a um sem número de chamadas dos pacientes fazendo quilometros a andar para trás e para a frente, resulta num certo cansaço, sendo que surgem as ditas cujas.
E quando chego a casa fixo o meu olhar no espelho a admirá-las com um certo orgulho! Que cansaço bom! que óptima sensação de missão cumprida! E depois sai um sorriso parvo com um pensamento anexado "estás contente pelas olheiras sua tona?"
Posto isto dedico-me à resolução do meu problema e faço jus ao país que escolhi para viver.
Vou fazer a sesta!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Así se pinta Madrid

Gran Vía

Parque del Retiro





Templo de Debod





Palácio de Cristal



Parque del Retiro




Gran Vía

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

1 ano

1 ano.
Calor.
Férias na Quarteira.
Bolas de Berlim.
Telefonema.
Excitação.
Primeiro emprego.
Os meus velhinhos.
Frio.
Fim-de-semana no Gerês.
Muito frio.
Chegada.
E-mail.
Choque.
15 dias para partir.
Despedida.
Sofrimento.
Tenerife.
Vida nova.
Sol.
Aprendizagem.
Saudade.
Praia.
Decepção.
Partida.
Navio.
Enjoo.
Alto mar.
Madeira.
Lindo.
Portugal.
Frustração.
Esperança.
Coragem.
Aventura.
Madrid.
Surpresa.
Encantador.
Árduo.
Gratificante.
Recompensa.
Feliz.


E assim se resume um ano de vida.



sábado, 14 de novembro de 2009

Quem somos?

"É instrutivo ver os vários retratos que fazem de nós pela vida fora. Com traços lisonjeiros ou desagradáveis, entram-nos sempre pelos olhos dentro como estranhos, a perturbar uma paz que tinha um rosto habitual, familiar, a que estávamos acostumados. À imagem tranquila, sobrepõem-se outras inquietantes que não servem no cartão de identidade, e, contudo, nos identificam publicamente mais até do que a que nele figura. É que não se trata de neutras fotografias. São perfis apaixonados, justos ou injustos, com as virtudes e os defeitos cruamente patenteados. Quem um dia nos lembrar, é por eles que nos lembra.

Somos o que nós sabemos, e parecemos o que os outros dizem de nós."

Miguel Torga