terça-feira, 2 de março de 2010

A minha felicidade é isto.

"O presenta ganhou outra força, outro significado, novos contornos, muito mais belos e poderosos. O futuro ficou onde deve estar: no futuro. Gosto de sonhar que isto ou aquilo vai acontecer. Gosto de imaginar momentos que irão chegar com requintes de cenas cinematográficas, mas já não deposito nessas imagens a mesma energia, a minha carne e o meu sangue, como se da concretização desses sonhos dependesse a minha felicidade.
A felicidade é outra coisa; é estar sentada nesta secretária branca a escrever enquanto o meu filho se diverte lá fora no jardim com os amigos a jogar ping-pong e a fazer bombas na piscina. Felicidade é ter olhos e poder ver o azul do mar através da minha bela janela, ouvir o canto tranquilo e conversador dos pássaros e saber que no final da tarde, antes do dia terminar e enquanto a lua já sobre, luminosa e manchada por cima da ponte na outra margem, existe alguém que irá meter a chave à porta, que irá subir as escadas para me abraçar, que me irá contar como correu o seu dia e ouvir-me sobre o meu, e depois sentamo-nos à mesa, jantamos, conversamos e rimos como uma família normal, igual a todas as famílias unidas que ainda resistem às acrobacias emocionais que a existência vai semeando, qual armadilhas para corações mais atreiros a devaneios adolescentes.
A felicidade é aqui e agora, hoje, daqui a um bocado, no último beijo que lhe vou dar antes de adormecer e saber que amanhã, quando acordar, ele vai lá estar, por ele, por mim e para mim. E quando sonho com o que ainda não tenho, a beleza dessas imagens mantém-se, e isso basta-me."
in "O Dia em que te esqueci" de Margarida Rebelo Pinto

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